22 de Fevereiro de 2018
Opinião
Margarida Oliveira
As ruas da memória

Há figuras que fazem parte do meu imaginário infantil. Umas pertencem ao mundo da fantasia, outras são, ou foram, bem reais. Ao lado da Branca de Neve, do Pinóquio, da avó do Capuchinho Vermelho, vive  a "Conceição Cinco Coroas”, com as suas setes saias, o "Orelhas, que carrava lavadura para o Lar da Terceira Idade e também a Teresa Camposana... Vivem todos juntos, nas memórias da minha infância, como se fossem todos personagens de um livro que guardo religiosamente.
A Teresa Camposana, filha da Rita Camposana, que já não conheci, vestia de preto da cabeça aos pés, trazia a reluzir nas orelhas os Pintos d’El Rei D. João e fazia-se acompanhar, sempre, pelo seu cajado. O "toc, toc" do pau a bater pela rua tornou-se  numa sombra, que nunca a largava. Era uma figura um tanto misteriosa e que causava as mais variadíssimas reacções nas pessoas. Diz-se que era destemida como poucas. Atravessava o concelho a pé, de noite, com uma faca debaixo da saia rodada, que pendia até aos tornozelos, sempre pronta a enfrentar todos os perigos. Dominava os homens pelas partes mais sensíveis e dizia que até os levantava ao ar, se preciso fosse. Suspeitava-se que tinha muito dinheiro, até porque era benemérita dos Bombeiros, da Igreja e de várias instituições mas passava os dias na rua a apanhar papelão. Fazia da morte e esfolanço de cabritos uma profissão.
Mas a característica mais marcante da Camposana era outra.... Os rebuçados! Trazia mil rebuçados nos bolsos ou num saco de plástico que levava pela mão, e quando via uma criança, ou mesmo um adulto que gostasse, distribuía sorrisos, um pouco de conversa e pedaços de doçura. Algumas pessoas não os comiam, alegavam que cheiravam a cabrito.... Eu comi alguns!
E era vê-la rua acima a dar rebuçados de fruta a quem passava. E era vê-la nas cerimónias oficiais, nas festas, nos momentos importantes da comunidade, a querer furar por entre a multidão, para conseguir fazer a entrega dos rebuçados. O Presidente Jorge Sampaio, quando cá veio, ainda levou um rebuçadinho da Teresa Camposana! E o Primeiro Ministro Cavaco Silva levou dois! Mas só depois do segurança lhe agarrar no braço quando a viu meter a mão ao saco... Teve medo que ela tivesse uma arma. E na verdade ela tinha! Era com os rebuçados de fruta que desarmava qualquer um, era com os rebuçados de fruta que combatia as tristezas da vida. Hoje percebo, os rebuçados eram a arma dela.
No dia em que o cajado dela caiu por terra, um menino desapareceu. Os pais aflitos já não sabiam mais onde procurar. Mais tarde, o menino chegou a casa e disse que tinha ido ao velório da Teresa Camposana. Os pais surpreendidos, ainda de coração aos saltos, não souberam o que responder ao filho quando este disse "Fui ao velório porque ela era minha amiga, ela dava-me rebuçados".
Tenho a certeza que a Teresa Camposana faz parte do imaginário infantil desse e de muitos outros, que um dia foram meninos e que hoje são homens e mulheres, tal como eu. Ela já não se passeia pelas ruas de Mondim, mas passeia-se pelas ruas das nossas memórias. Como uma personagem de um livro que se guarda, ao longo dos tempos, religiosamente.

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Comentários (8)
Anónimo disse

Texto comovente que conta a história de uma das figuras mais castiças de Mondim.Também eu comi alguns rebuçados, e já não era criança, da Teresa Camposana. À Margarida, que conheço desde pequenina, os meus parabéns pelo texto que partilhou connosco. As críticas aqui feitas, totalmente fora do contexto, apenas traduzem inveja e só podem vir de pessoas pequeninas. Continuo a aguardar por novos textos da família Jales de Oliveira, que são o expoente máximo da poesia popular de Mondim :-). Um abraço


02 de Outubro de 2011 22:31




Eduardo disse

Cheira-me que o Poder em Mondim, não tarda nada, vai transformar-se no que se transformou em Cabeceiras. Um albergue do Ditadores e bufos. Os comentários sobre este artigo que nada tem de político, pelos vistos servem para alguns ajustar contas com a autora do referido artigo. Ou é inveja ou dor de cotovelo. Vejo estes comentários como uma forma de limitar a cidadania. A Margarida a meu ver não se deve sentir diminuida e continuar a escrever muito bem como o tem feito, independentemente das críticas baixas e até pessoais, envolvendo pessoas de família. É de facto uma pena que esta gente que se instalou no Poder em Mondim, supostamente para ser uma lufada de ar fresco na política local, se esteja já a portar como autenticos déspotas, tentando limitar e castrar a opinião. Quanto à alegação do Jornal ser um abrigo para ressabiados, nós sabemos muito bem quem está por detrás destas criticas e sabemos que "O Basto" incomoda muita gente. Pelos vistos não incomodou, enquanto promoveu a imagem do Eng. Humberto em sucessivas entrevistas que foram lidas pelos mondinenses e que contribuiram para o levar ao Poder, quando outros, do lado de cá do rio queriam impor outras candidaturas pelo PS. Mas pelos vistos isso já está esquecido. Habituem-se à crítica, pois ela é normal em democracia e tentem governar de uma forma justa e imparcial, ouvindo todos.


05 de Março de 2011 22:03




Anónimo disse

As palavras (escritas) podem ser muito belas e emotivas mas não conseguem apagar ou disfarçar o carácter das pessoas. A dita escritora, tal como muitos jovens deste país, foram criados sem ter de passar por dificuldades e tendo um curso, pensam que têm logo direito a um emprego. Jovens, abram os olhos, os tempos são outros. Utilizem os conhecimentos que adquiriram e lancem-se à vida. O que o faz azedume nas pessoas é elas saberem que a competência não conta mas sim os compadarios. A Margarida, na campanha eleitoral foi arrogante até com pessoas que eram suas amigas, mas a sede de poder, tolheu-a. Por outro lado o CDS colado e comprometido com os que dominam Mondim há mais de 50 anos, só faltou lá o reforço do PS, o Cunha, não iria alterar em nada a situação tal como está a acontecer com o executivo socialista que apenas procura premiar os tachistas tam como bem disse o anónimo das 2.31 de 3 de março. Quem não tem preferencias clubistas ou amizades pessoais cegas sabem bem do que estou a falar. A mim quase me tiraram o pão da boca mas felizmente o mundo não é só Mondim. Perceberam?


05 de Março de 2011 14:35




Miguel disse

Anónimo ...Então quem entra na politica está à espera de tachos?Sinceramente acho o Lúcio bem melhor politico que o Humberto, o que não é difícil, e o Lúcio tinha um projecto para Mondim, coisa que falta ao Humberto ...E aprenda uma coisa, o Humberto ganhou... parabéns ao mesmo e toda a sua equipa, mas o Lúcio não foi derrotado nem o Francisco, foram menos apoiados...não há derrotados em politica.Há uns com mais apoio e outros com menos. Se a Margarida o apoiou, estava num dos lados que teve menos apoio, isso não quer dizer que esteja errada. O que fez diferença nesta eleição foram pessoas populares em bares e borgas e que são autenticas nulidades que esperam tachos, e recorrem a tudo para se autopromover, mas que espremidos resultam em nada, mas são porreiros, talvez incompetentes mas porreiros. A Margarida tal como o pai são pessoas que pensam, que tem conteúdo e que de certeza querem o melhor para Mondim, e não para o próprio umbigo.


05 de Março de 2011 05:32




Anónimo disse

Pois, pois... a Margarida por força da escrita.Dá vontade de rir! O pai esteve na câmara mais de 20 anos para não ir de autocarro para a escola de Molares. A filha segue os mesmos passos literários e não só! Fez parte da lista do CDS nas últimas eleições para ver se arranjava um tachinho na câmara. Só que o CDS e tudo o vento levou!Há famílias em Mondim que pensam que ainda vivemos na idade média em pleno período feudal. Este jornal "O Basto" transformou-se num albergue de ressaibiados. É pena. Tinha tudo para ser um jornal decente.


04 de Março de 2011 21:37




Miguel disse

meu Deus... anónimo das 15:33, precisa de uns rebuçadinhos para eliminar tanto azedume. Depois de uma crónica deste calibre ter o discernimento de a levar para onde a levou é preciso estar mesmo de alma azeda. Ou então com tanta dor nos cotovelos. A Margarida, tal como o pai, por força da escrita, como diz o Carlos Leite, ficarão na eternidade de Mondim e da nossa memória, já o excelentíssimo anónimo não passará daí...um anónimo


04 de Março de 2011 00:53




Anónimo disse

Se pudesse juntar aos rebuçados 25 anos de acessoria na Câmara, como o pai, é que era bom. Os outros, das famílias insignificantes, - segundo pensam algumas famílias dominantes - que se lixem. Como eram amigos da família Faria podiam ter feito como estes: depois de terem passado convenientemente pelo CDS e PSD, para continuar a mamar despudoradamente, juntaram-se ao PS. O preço dos votos afunda o país. Aguenta Zé Povinho.


03 de Março de 2011 15:33




Carlos Leite disse

crónica doce como os rebuçados, a Camposana era com os rebuçados a Margarida é com a escrita. Perdoa-me a comparação, mas quem sai aos seus....


03 de Março de 2011 02:31








Anónimo:



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Este vídeo foi apresentado no oitavo aniversário da adbasto (Associação de Desenvolvimento Técnico-Profissional das Terras de Basto), e conta, visual e oralmente, a história desta associação.
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