22 de Fevereiro de 2018
Opinião
Margarida Oliveira
Romaria
Era a noite quente de 24 de Julho de 2009, véspera de S. Tiago. 
Preparou-se a rigor. Vestiu a sua saia rodada, a blusa que era da sua avó, que todos os anos usa orgulhosamente, pôs o avental preto. Apanhou o longo cabelo num toucado lambido, no cimo da cabeça, os seus brincos dourados a pender das suas orelhas. Na mão a saquinha de pano, o lenço nas costas, nos pés a chinelas. Ao longe, a entrar pelas janelas abertas, pareciam ouvir-se já as vozes das mulheres a "botar o alto" e as violas dos homens de colete.
Enquanto a noite cai e se preparam os últimos pormenores a excitação aumenta gradualmente. Mal a porta de sua casa se fechou sentiu na rua o cheiro das merendas trazidas em cestas à cabeça das mulheres, ouviu o barulhos dos cajados a bater no chão, os socos a marcar o compasso das modinhas.
Começaram os grupos a reunir-se na Avenida. Concertinas, violas, cavaquinhos, ferrinhos e bombos não param de tocar toda a noite. Novos e velhos todos dançam com a mesma alegria! Vieram os de Vilar e Vilarinho, os de Ermelo, os de Vilar de Viando e Pedra Vedra, os de Arosa, da Gandarela e do Arco. E, é claro, os de Mondim! Gente, gente, muita gente!
Começou a arruada. Mondim estava inundado, um mar de gente para ver os romeiros passar. Os grupos percorreram as ruas numa imitação da caminhada, da subida ao monte sagrado pela noite dentro como se fazia antigamente. Lá do alto a luzinha parecia mais intensa, mais brilhante. A imagem da Senhora, nas pagelas, é respeitosamente colocada nos chapéus dos homens, como se de um altar se tratasse. As raparigas novas davam roda às saias enquanto dançavam pela estrada fora. Os garrafões e as garrafas iam passando de mão em mão aquecendo as gargantas e desinibindo os corpos mais envergonhados.
No final do desfile abriram-se as cestas e as bocas esfomeadas. Mantas no chão e travessas a passar por cima das cabeças do pessoal. A comida chegou para quem participou na romaria e para os estômagos dos muitos curiosos que no decorrer da noite lá se foram juntando à festa. O lanche é quase um banquete gigante, afinal de contas come-se sempre da merenda do vizinho!
A meio da noite amontoam-se os socos e as chinelas a um canto da habitual pista de baile no largo do jardim. Os lenços já andavam trocados, os cabelos despenteados, as caras rosadas de tanto dançar, o suor a escorrer pelas costas. Trocam-se os pares, dão-se as mãos a quem estiver ao lado, tudo roda como sabe, como pode... Alguns a essa hora já podem muito pouco!
Saiu da roda, sentou-se num passeio a olhar, de longe, para aquela festa. Incrível o ambiente que se cria nessa mítica noite. Olhou para os seus pés há muito descalços, pretos de tanto raspar no chão das ruas da sua terra. O espírito é sempre o mesmo mas todos os anos há pormenores deliciosos que são gastos de tanto contar e recontar, a sorrir durante todo o ano.
Mondim dançou até altas horas da madrugada. Ninguém queria que aquela noite acabasse, ninguém queria ir para casa, ninguém queria ir dormir. É a noite em que se respira Mondim! Não houve partidos, não houve classes sociais, não houve diferenças de pessoas... (Se houve não devia ter havido!) Nessa noite houve apenas o mesmo amor às nossas tradições, o mesmo respeito pelos costumes dos nossos antepassados, o mesmo orgulho pela nossa terra!
Veio a dançar até casa a sentir o chão ainda quente, a sentir a alma cheia. As chinelas já nem as tinha... Não importava que já fosse quase dia e que já estivessem a dormir. Cantava alto:

"Nossa Senhora da Graça
Eu pró ano lá hei-de ir,
Eu pró ano lá hei-de ir.

Ou casada
Ou solteira
Ou mocinha de servir, ou mocinha de servir!"

E este ano, solteira ou mocinha de servir, lá estarei de coração!!
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Comentários (1)
Ana Luísa disse

Esta crónica tem som,tem cheiro e tem sabor....leva-nos até à noite de 24 de Julho, sempre que a lemos....de uma forma muito viva!Parabéns mana


06 de Julho de 2010 21:04








Anónimo:



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Este vídeo foi apresentado no oitavo aniversário da adbasto (Associação de Desenvolvimento Técnico-Profissional das Terras de Basto), e conta, visual e oralmente, a história desta associação.
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