22 de Fevereiro de 2018
Opinião
Margarida Oliveira
A minha primeira vez
Quando andava na Escola Primária diziam que os meus textos e os meus trabalhinhos eram feitos pelo meu pai. Passei para o Ciclo e depois para a Escola Secundária e continuavam a dizer que as palavras não eram minhas, que era o meu pai que pegava na caneta a deixava a sua veia poética, conhecida por todos, saltar cá para fora. Vivi sempre apertada por este sentimento, por esta desconfiança. Na altura nem deixava que ele desse uma vista de olhos ao que eu escrevia, que corrigisse uma única palavra, pois, na minha cabeça de menina, era como dar razão aos que me acusavam de eu forjar um jeito que eu não tinha…

Que culpa tinha eu de ter nascido também com um gosto imenso pelas letras? Cedo percebi que nós, enquanto pessoas, podemos carregar como herança , os feitos dos pais, sejam eles bons ou maus… Essa herança pode tornar-se um fardo demasiado pesado ao longo da vida.  

O tempo passou e hoje nada resta desse sentimento que eu não sabia gerir na altura, por ser criança. Agora percebo que tal acusação só pode ser entendida como uma honra. A nossa escrita ser confundida com uma escrita maior, com quem de facto sabe pôr no papel tudo o que lhe brota da alma é uma lisonja tamanha.

Gosto de letras, de quem faz o bom uso delas. Por isso mesmo estou aqui, entre estes aventureiros que nos brindam com os seus pensamentos, os seus sentimentos, as suas ideias desenhadas numa caligrafia cuidada. Curiosamente apenas eu, mulher, entre muitos homens! Tudo o que eu escrevi está fechado nas minhas gavetas. Sou uma novata no que toca a abrir, sem pudor, as portas aos meus textos. Perdoem-me, sinto-me ainda uma aprendiz, estou na fase dos sarrabiscos…

E claro, continuo a escrever com medo… Agora medo que não pensem que foi o meu pai a escrever!

A partir de agora já sabem quem sou… Sou filha do pai sim, com muito orgulho! Mas ficam a saber que também sou filha da mãe! Mas para perceberem isso vão ter que ler as minhas próximas crónicas. Esta é a minha primeira vez…

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Comentários (9)
Luzia Carmo disse

Uau que lindo Margarida. É as pessoas quando se deparam com alguém talentoso gostam de ir buscar coisas onde não as há, denotei uma certa inveja em quem te acusava disso! Gostei muito da tua primeira crónica e fico muito feliz por a partilhares comigo! Ah e também adoro letras como sabes! bjs


18 de Junho de 2010 12:39




Lurdes disse

“A Minha Primeira Vez” foi tudo aquilo que devia ter sido: pura, sincera e muito bem conseguida. Deixou ainda uma grande vontade de virar a página e continuar a ler…. Parabéns Margarida


11 de Junho de 2010 22:20




Angela Vieira disse

Parabéns Margarida! “A minha Primeira Vez” vai ser o primeiro de muitos, vais ser uma Mulher no meio de muitos Homens, com Prestigio merecido, faz Justiça do Nosso Sexo e mostra-lhes que somos melhores que eles!! Nos Mulheres contamos contigo !


09 de Junho de 2010 09:39




Marinho Osório disse

Querida Margarida, há muito que sou fã dos "sarrabiscos" que soltas, noutras crónicas, noutras páginas...Naturalmente, nas gavetas da tua vida, existem muitas letras escondidas, umas mais que outras. Mas julgo que o que somos, na escrita escondida, não é diferente do que somos nas frases que nos saem, nos pensamentos que não escrevemos, que damos aos outros de maneira menos cuidada, no dia-a-dia. Quem te conhece hoje, sabe de onde vieste, sabe quem regou em ti o gosto, o mais simples gesto, o poder do afecto, quem te alimentou os princípios, quem te amamentou os sonhos. Mas também sabe que em cima de uma base maravilhosa, foste capaz de construir as tuas próprias paredes, as tuas próprias varandas e janelas, por onde te mostras a quem te quiser ver, mesmo num acaso, que uma curta passagem permite. A mim resta-me pedir-te, em nome de muitos certamente, que nos deixes ver-te mais vezes à janela, mais vezes à varanda, que nos deixes espreitar as tuas gavetas, de aprendiz! Beijos.


08 de Junho de 2010 11:59




Luis Jales de Oliveira disse

Filha do Pai, filha da Mãe e filha da Terra. Babado, como não podia deixar de ser.


08 de Junho de 2010 10:42




Zara disse

Grande Margarida, grande mulher...vê-se logo que és filha da mãe... e do pai. Um bem haja aos três!


07 de Junho de 2010 20:29




Valter Lobo disse

Excelente. ;)


07 de Junho de 2010 17:14




Marcos disse

Parabéns Margarida! Espero que este seja o primeiro de muitos. bjinho


07 de Junho de 2010 13:35




Paulo Pinto disse

Sim, os textos e crónicas que se publicam são quase sempre escritos por homens... É excelente que apareçam mulheres, e muitas, a aventurar-se também. Às vezes é preciso um pouco de coragem, diria mesmo descaramento... Mas disso também nós homens precisamos quando nos metemos nestas coisas. Coragem e boa sorte!


06 de Junho de 2010 00:48








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