22 de Fevereiro de 2018
Opinião
Alfredo Pinto Coelho
O monte da minha condição
Miguel Torga, numa das suas passagens por Mondim, em visita ao monte da Sr.ª da Graça, perpetuou em palavras, num pequeno texto, isto:

"Empoleirado neste miradouro, solto os olhos por metade de Portugal. Montes, rios e vales edénicos, genesíacos, como que acabados de sair das mãos do Criador...

A natureza na sua primitiva essência, desabitada, limpa de toda a mácula humana. Nem sequer tocada pelo pasmo de quem a contempla."

O Jales de Oliveira, cidadão de Basto, escreveu :
"... quando a maquinal rotina escancara diariamente, os postigos à luz que nasce, a vista magnetizada até parece voar... e os nossos olhos ougados, lá vão sofregamente, mamar uma vez mais na teta da nossa identidade."

Uma perspectiva - nem sei se prosa se poesia -  do alto e outra de baixo, aos olhos de escritores que me tocam pela grandiosidade e pela proximidade.

A "saque", durante quase duas dezenas de anos, o Eldorado - o monte da Sr.ª da Graça- dos garimpeiros do vil mineral - o granito - começou a mingar em fartura.

Quando a fartura impera : é fácil, é barato e dá milhões - como na pesca de arrasto que na horizontal tudo leva, enquanto der...

Com os tempos, os calhaus dão de si e é preciso ir procurá-los mais abaixo - em profundidade - logo mais difícil, mais caro e a dar menos tostões.

Os homens não travaram a destruição e a natureza, "naturalmente", defende-se : agora, " quem quer peixe molha o cu."

Se o assunto não fosse sério, até apetecia dizer: é bem feita!

Ferido e esventrado até à medula, o monte da minha condição, só nos cuidados intensivos pode escapar.

O " ruído" da complacência com a situação : " muitas familias vivem à custa da pedra da Sr.ª da Graça ; não se podem " destruir" postos de trabalho, com os problemas sociais que daí advêm, sob pena de se perder mais população... "

Isto, somado ao " crime" da insensibilidade para a preservação das maiores referências paisagísticas e sentimentais da região, permitiu que se tenha chegado à situação recente que é termos  a " teta da nossa identidade" ferida, esburacada e à espera de  botóx  para recuperar a sua morfologia natural. 

Como se não bastasse, nas obras do espaço envolvente ao santuário, em versão de "novo-riquismo" , celebrou-se o " inimigo" em muralhas e muros desproporcionados, como que a justificar o mal pelo bem que me fazes.

Lá no alto, onde o santuário sózinho, austero, modesto mas belo, tão bem dignificava pela fé um local que está perto do céu.

A solução, politicamente, socialmente, e outras coisa terminadas em  "...ente" não é fácil quando se atingem tais proporções económicas. Mas a questão está, isso sim, é em se ter permitido atingir tal dimensão, versus descalabro ambiental consumado, apesar de, e ainda bem, ter empregue e empregar pessoas que têm o direito a ganhar a vida.

É a velha questão : a fronteira entre o interesse individual e o interesse colectivo. Onde acaba o primeiro e se deve sobrepor o segundo ?

O compromisso entre rentabilizar um recurso natural - um direito - e preservar, no seu todo, tão importante património - uma obrigação -  falhou. Redondamente.

Esta é a contestação insofismável. E vale a pena tornar a bater no ceguinho : " nós não herdamos a terra dos nossos antepassados. Foi-nos emprestada pelos nossos filhos..."

Achou esta crónica interessante?
Comentários (7)
AscerieIderee disse

La ringrazio per intiresnuyu iformatsiyu


17 de Janeiro de 2011 17:39




Anónimo disse

Grande imbecil!!!


16 de Janeiro de 2011 18:43




AscerieIderee disse

Perche non:)


16 de Janeiro de 2011 06:41




Anónimo disse

Transfomar a destruição do Monte Farinha numa questão económica é estar a atirar areia para os olhos das pessoas.A desculpa de que muitas familias vivem da pedra é no minimo ridicula. Primeiro não é verdade. Quem não acreditar que faça um levantamento sério das pessoas de Mondim envolvidas na extracção do granito.Segundo, nem que fosse, nada,justifica que se destrua a marca de uma região ( BASTO ). O Monte Farinha não é só de Mondim.Também o é de toda a Região de Basto. E toda essa Região devia-se erguer e junta gritar : BASTA DE DESTRUIR. Quem ganha com a destruição do Monte Farinha ? Os empresários que não cumprem a lei? Que não repoem o coberto vegetal? Que alteram a topografia de terrenos em reservas ecológicas? Que abandonam os terrenos depois de terem de lá extraido pedra? Que dstroem as estradas com o transporte do granito para fora de Mondim? Que têm os seus trabalhadores a trabalhar em condições de perigo permanente ? ( recorde-se as mortes conhecidas em acidentes nas pedreiras) Mas se ao menos esse dinheiro ficasse em Mondim para criar ai riqueza. Mas não. Mondim vende o seu "ouro" e em outras regiões é que se tira a mais valia da pedra, ou seja, é lá que ela é transformada nas mais variadas formas.Imaginem o que acontece a alguem que tenha um terreno em reserva ecologica e se atreva a construir lá seja o que for.Cai o Carmo e a Trindade. E os empresários que destroem centenas de hectares de terreno em reserva ecologica e ninguem os impede? Para quem não sabe, 90% de toda aquela horrivel mancha de destruição que se vê ao longe é considerada reserva ecologica. E mais, se qualquer pessoa que queira montar uma empresa tem que respeitar as exigências que a lei preve porque razao os empresários de extracção de granito não fazem o mesmo? Estão acima da lei?Quem não está legal não trabalha. É assim em todas as actividades económicas. É altura de se criar um movimento para parar com esta destruição. As Terras de Basto têm que manter a sua principal marca de identidade - O Monte Farinha com o seu Santuário de Nossa Senhora da Graça no cimo. Pessoas com o Eng. Pinto Coelho, O Luis Jales de Oliveia,e tantos outras, têm enquanto Mondinenses, já demonstrado bem o seu amor por esta terra. Por mim deixo -lhes o desafio de criarem um movimento de defesa dos interesses do Monte Farinha. Certamente muitos aplaudirão a iniciativa e prestarão um serviço memorável à sua terra.


19 de Novembro de 2010 23:07




Zara disse

Será esta a nossa condição, a de terra sem qualidade?


21 de Junho de 2010 10:56




Marinho Osório disse

Ainda há poucos dias, ao fazer a viagem de Celorico até Mondim, tive a oportunidade de constatar tamanha brutalidade, e o defeito que as pessoas de Basto, entregarão juntamente com a Srª, aos filhos da história. Lembro de me ter perguntado: "Será que são as pessoas de Mondim que fazem rasgos destes nas próprias costas?" e se são, os outros deixam?


18 de Junho de 2010 17:27




Luis Jales disse

Grande compadre, primo, sobrinho, padrinho e amigo. Grande Mondinense de Basto! Luis Jales


18 de Junho de 2010 13:39








Anónimo:



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Este vídeo foi apresentado no oitavo aniversário da adbasto (Associação de Desenvolvimento Técnico-Profissional das Terras de Basto), e conta, visual e oralmente, a história desta associação.
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