22 de Fevereiro de 2018
Opinião
Luís Jales de Oliveira
Silêncio

O caminho de ferro já foi. O sagrado Tâmega vai a seguir. O Monte Farinha está a ir aos bocadinhos…

Silêncio! Paira um silêncio espesso e esponjoso a cobrir, com um manto de vergonha, todas as agressões perpretadas contra nós. Este silêncio enevoado, claustrofóbico, espasmódico e anestesiante. Nem gritam os de cá, nem gritam os de fora, nem gritam os nossos ausentes.

Hermígio Romarigues, que bastou três vezes, deve ferver de indignação, porque poderíamos bastar aqui, quantas vezes fossem necessárias.

Santa Senhorinha de Basto, originária de Atei, deve dar saltos no tumulo porque nos querem eutrofizar, ela que com um simples toque, das suas dotadas mãos, fazia brotar,  das rochas dos nossos montes,  milagrosas fontes de água viva.

Martim Vasques da Cunha, castelão de Arnoia, preferiria, mil vezes, incendiar esta concha escancarada  do que capitular aos invasores.

O Condestável, D. Nuno, em Pedraça, puto imberbe e adelgaçado, branquinho e de nariz adunco, bastaria só por si para todos os gordos e anafados, para todos os corruptos governamentais, para todos os saqueadores e gestores de alta traição, capazes de vender a própria mãe por um prato de lentilhas.

Camilo, irascível e genial, de bengala de pau santo, de bacamarte aperrado, ou de clavina de carregar pela boca, lutaria na primeira linha se a caneta lhe não bastasse.

Frei Bernardo, de São Romão, entregue à condenação duma morte anunciada era capaz de escrever, em verso, que era preferível partir depressa que assistir ao presente aviltamento.

O caminho de ferro já foi. O sagrado Tâmega vai a seguir. O Monte Farinha está a ir aos bocadinhos.

As nossas escolas foram abandonadas, os nossos centros de saúde foram amputados, as nossa pontes vão ser desactivadas, vão ser transferidos os tribunais, as repartições de finanças, as delegações da EDP, dos CTT e da Assistência Social…

As flautas dos pastores já não tocam a reunir. As trombetas das nossas tribos já  não apelam ao combate. Já não tocam, a rebate, os sinos dos nossos campanários. E até as mulheres de Basto, useiras em “botar o alto” se quedam, mudas e amordaçadas, nesta “vil e apagada tristeza”.

Silêncio! Paira um silêncio espesso e esponjoso, claustrofóbico e anestesiante…

Achou esta crónica interessante?
Comentários (1)
Miguel Teixeira disse

Caro Luís Jalles, um artigo excelente e que traduz uma infeliz e assustadora realidade do que já estamos a sentir e do que nos espera neste canto de Portugal tão maltratado pelo "Terreiro do Paço". Continue a manter o inconformismo e a irreverência, pois só dessa forma é possível despertar consciências. Parabéns pela estreia neste espaço. Grande abraço


16 de Maio de 2010 23:23








Anónimo:



opinião demarcada
Vídeo em Destaque
Este vídeo foi apresentado no oitavo aniversário da adbasto (Associação de Desenvolvimento Técnico-Profissional das Terras de Basto), e conta, visual e oralmente, a história desta associação.
Notícias
  • Últimas
  • + lidas
  • + comentadas
  • + votadas
edição impressa