22 de Fevereiro de 2018
Opinião
Vítor Pimenta
Bairrismo Arcoense, q.b.
O bairrismo - não gosto do termo - é positivo e natural quando não é contra ninguém, ainda que haja quem não o entenda desse modo. O "bairrismo arcoense", entre a conotação sombria e nobreza de carácter, no contexto da Região de Basto, não é de todo um caso isolado. O mesmo sentimento comunitário pode ser encontrado em Gandarela de Basto, Cerva, ou Fermil. Mas como arcoense e pela envergadura, que me perdoem os restantes, resumo este exercício à freguesia onde resido.

Arco de Baúlhe nunca foi município e, até à reforma liberal de 1836, o actual território era administrativamente ambíguo. Uma parte pertencente a Cabeceiras de Basto, com sede distante em São Nicolau (roubaram-lhe entretanto informalmente o nome com os Paços de concelho), e outra ao extinto município de Atey de Basto, ali ao lado.

A história, de resto, é parca. Não há grandes casas senhoriais, nem se desenterraram teatros romanos. O lugar terá crescido em redor de vias importantes, como a velha estrada real, com estalagens e serviços, no acesso privilegiado de um entreposto de bens e pessoas, muitas delas de fora e que por ali ficaram.

A diferença na identidade e no carácter das gentes de Arco de Baúlhe, para o bem e para o mal, talvez mais permeáveis e menos conservadoras (mas só um bocadinho) pode nascer daí. Quanto muito poderá juntar-se a própria geografia, menos acidentada, mais aberta, da zona sul do concelho, que situa Arco de Baúlhe também num contínuo territorial e de afinidades, que praticamente não o dissocia de freguesias vizinhas, neste mas sobretudo noutros municípios. A relação é, e sempre foi, mais fácil com essas populações do que com o resto do concelho de Cabeceiras. A Linha do Tâmega só potenciou esse eixo.

Neste sentido, e sem surpresas, Arco de Baúlhe tem uma vida socioeconómica independente de Cabeceiras de Basto, à excepção de questões de natureza burocrática, contributiva e judicial. A particularidade, a meu ver, só enriquece o concelho e a região. Mau sinal é quando essas condicionantes são geradoras de sentimentos de vazio crónico, como acontece actualmente entre os arcoenses. Ainda mais agora, quando as autarquias têm uma importância sem precedentes na definição de um caminho de desenvolvimento.

Se é verdade que o actual Presidente da Câmara teve o cuidado de dotar Arco de Baúlhe de infraestruturas públicas importantes, também é verdade que estas nunca assentaram num modelo de crescimento harmonioso e careceram sempre do brio técnico devido. Há a sensação de que as decisões sobre a localização são tomadas de ânimo leve e aleatoriamente. O espaço público é péssimo e o próprio Plano de Urbanização aprovado não tem servido sequer como orientação no crescimento da sua malha urbana. É uma gestão de segunda.

Arco de Baúlhe é assim só mais um exemplo paradigmático de como o modelo de poder local vigente falha e tenderá sempre a castrar o potencial desenvolvimento de comunidades dinâmicas, com grande potencial de crescimento, só porque não são sedes de concelho. E isto não é bairrismo serôdio, é a mais crua das realidades.
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Comentários (4)
Fábio Amaral disse

Muito bom, Vítor!


03 de Abril de 2010 03:54




Dario Silva disse

Ao Arco de Baúlhe espera um grande futuro previsto e anunciado pela Variante rodoviária que poupa, digo eu, uns quatro minutos na viagem entre o nó da auto-estrada e Cabeceiras de Basto. Parabéns, estais no bom caminho. E eles foram todos democraticamente eleitos: isso é que me preocupa.


31 de Março de 2010 22:20




Anónimo disse

Já há muito que ademiro a forma de escrever do Vitor, e cada vez mais ademiro a sua frontalidade verbal e de pensamento. É um artigo muito bom e que deve servir para uma profunda reflexão sobre desenvolvimento. Já agora parabéns pela página on-line do jornal está de nivel superior.


31 de Março de 2010 18:11




Eduardo disse

Um artigo muito interessante. Infelizmente uma visão que traduz a realidade actual do Arco.


31 de Março de 2010 13:54








Anónimo:



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