22 de Fevereiro de 2018
Editorial
José Duarte
Do voto inútil

No momento em que escrevo esta palavras faltam precisamente sete dias para o dia das eleições legislativas, a 4 de Outubro. Por certo, no momento em que lerem estas palavras faltarão menos dias, ou se as lerem depois de dia 4 já pouco estas palavras importarão. De qualquer das formas elas têm uma importância relativa a dois sentidos; ou significam algo para si ou não significam nada. Entre um lugar e o outro fica localizado o que virá no futuro deste país, sendo certo que o passado recente e o presente, sempre futuro próximo, nos projectam um quadro empobrecido com uma minoria a remar contra a maré.

Falemos dessa maré. Há duas forças políticas que assumem na sua mensagem política (bem mais semelhante do que os seus arrufos de quem-é-que-chamou-a-troika possam dizer à primeira vista) que serão os próximo capitães ao leme deste país encravado entre a Europa e o Atlântico. Esta é a maré. Uma maré que vem longe, quase tão longe quanto a revolução de Abril, quase tão longe quanto uma memória que parece curta, quase tão longe que continuamos a não ver, tão perto, os efeitos devastadores de políticas que nos empobreceram, que nos desertificaram numa consolidação urbana e populacional (e de recursos) no litoral para ficarmos, ainda mais encravados a esse Oceano que os mesmos partidos nunca souberam ver como uma oportunidade face à periferia da Europa a que fomos votados por mordomos de Bruxelas.

Esta é a maré que nos pede uma maioria, para poder governar sem chatices. Na televisão os ‘politólogos’ das manhãs, das tardes e das noites, defendem com afinco essa mesma necessidade em prol de uma ‘estabilidade necessária’ (como se tivéssemos tido até agora alguma com as anteriores maiorias!...). O próprio presidente da mui nobre República, mais morto que vivo a fazer jus à democracia que zela, assumiu também essa importância, trazendo a si uma autoridade que nada lhe concede. Em breve, veremos esta maré clamar pelo conhecido ‘voto útil’, não só menosprezando a própria natureza do voto como numa última investida para mobilizar a grande percentagem de indecisos. 

Não tento desmobilizar qualquer leitor a votar em qualquer força política que se apresenta a eleições. Terei a minha escolha como vocês têm a vossa. No entanto, não gostaria de deixar em branco o quão branco, de nulidade, se tornou o nosso sistema político de democracia parlamentar, e como tal, representativa. Como ficamos envoltos neste bipartidarismo a três? Como ficamos enredados na concessão de poder em quem tanto nos tem enredado numa trama de violenta apatia e de apática mobilização contra quem nos violenta? Como deixamos que o direito de escolha tenha ficado reduzido à adjetivação de ‘útil’?

Peço-vos um exercício: o voto ‘útil’ é útil a quem? Serve que interesses ou perpetua quantos instalados? É útil para o país, para todos nós, para a sua consciência? Quem procurar as respostas não gosta certamente de ser olhado como uma ‘coisa’ cuja ‘utilidade’ é eleger quem parece que já foi eleito. Está nas suas mãos persistir no erro de quem olha para si como ‘útil’ de quatro em quatro anos e ‘inútil’ o que fica entre eles ou remar contra a maré.

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