22 de Fevereiro de 2018
Terras de Basto | 12-02-2015
Por: Redacção
Entrevista a José Emanuel Queirós
José Emanuel Queirós em apresentação do seu livro © Carlos Moura
Geógrafo, activista e autor do recente livro «Terra - Portal de vida, Planeta do Homem».

Jornal O Basto esteve à conversa com José Emanuel Queirós, autor do recente livro «Terra – Portal de Vida, Planeta do Homem». Uma obra que onde o autor parte dos primórdios da existência, viajando pelo tempo na constituição do planeta que se abre à Vida. Nele se desenrola com desenvoltura a linha do pensamento, tantas vezes antagónico, sobre os caminhos da evolução e os riscos que interferem na existência humana. 

OBasto: Desde há muito tempo que o José Emanuel Queirós revela na sua vida uma profunda dedicação à valorização da Terra, planeta e “nosso mundo”, e igualmente à valorização do Homem como seu habitante. Acredita que a publicação deste livro é um culminar de toda essa dedicação ou apenas “só” mais um passo?

JEQ: Este livro assinala um ciclo vivido a jusante, nas margens do Tâmega, marcado por um íntimo questionamento sobre as terras que nos acolhem e nos sustentam, sobre quem, verdadeiramente, somos e o que por cá fazemos enquanto consciências individuais descobertas no mundo e o que o planeta Terra é em si mesmo e para todos nós. Esse percurso interrogativo sobre o processo existencial humano resultou do confronto inevitável com o mundo, com seus dogmas, preconceitos e heranças que me colocam dúvidas e que me suscitam alguma reflexão íntima pelo seu notório estado de morbidez e pela necessidade de melhor o compreender, um pouco mais do que o que dele nos ensinam. 

Como é óbvio, o escrito não vem fechar as portas ao questionamento, quando o seu propósito é torná-lo mais amplo e comum. Posso considerar que o livro «Terra - Portal de Vida, Planeta do Homem» culmina este período introspectivo com que clarifico algumas dúvidas iniciais levantadas pela ausência de uma visão integrada e contextualizada na vida do próprio organismo planetário terrestre.

 

OBasto: Em 2008, foi um dos maiores precursores do MOVIMENTO CIDADANIA PARA O DESENVOLVIMENTO NO TÂMEGA que esteve na origem do «Manifesto Anti-Barragem» contra a construção de cinco barragens na bacia hidrográfica do Tâmega. Esse grande desafio e experiência tiveram influência na decisão de escrever este livro?

JEQ: Em momento algum sou capaz de separar etapas anteriores do meu percurso com o desenvolvimento do rumo que tomo na etapa seguinte. Isso acontece sempre que tendo a fazer as retrospectivas que contribuem para meu próprio esclarecimento, por mais diferenciados que sejam os momentos e os contextos em questão. E, na verdade, tudo me parece ocorrer numa sequencialidade de ocorrências pautadas por algum vínculo a valores essenciais à vida que levamos em trânsito terreno e à necessidade de nossa harmonização com a Terra. 

De facto, essa iniciativa cívica do «Movimento» criada por cidadãos do Tâmega desapossados de interesses partidários e absolutamente comprometidos com o exercício da cidadania e a sua qualidade no microcosmos do Tâmega, constitui um período de grande enriquecimento pela partilhada da causa ambiental com as comunidades humanas aqui residentes e pelo apuramento das razões que legitimamente sustentam o «não às barragens!». A causa não vem expressa no livro, mas também não está completamente ausente do texto. Está lá subentendida, não é explícita mas está presente de forma implícita. 

Digamos, a questão da destruição do Tâmega com as barragens – enquanto rio de águas correntes e ecossistema específico e fundamental desta região –, não tendo sido a matéria que impulsionou a escrita deste trabalho, ela corrobora dos erros humanos sobe a Terra focados no livro e que colocam em questão o modelo de sociedade para que estamos tendencialmente direccionados, assim como o arquétipo de homem que culturalmente somos instruídos a imitar. Sendo certo que, tanto a civilização como as sociedades actuais quanto o homem contemporâneo colocado nas mais variadas latitudes, estamos displicentemente a dirigir-nos para o precipício colectivo com toda a sabedoria do mundo em nosso poder. 

 

OBasto: Considerando o activismo cívico e uma obra literária, ainda que se tratem de desafios diferentes, como compara o esforço e a dedicação exigidos por ambos? 

JEQ: Em ambos os contextos, tanto na participação das acções do «Movimento» como pelo acto da escrita deste livro, posso testemunhar um semelhante sentido de responsabilidade cívica, igualmente exigente em preparação e documentação prévia, em fundamentação técnica e respaldo nas matérias das ciências. Para todos os efeitos, nos dois casos, estamos a expor princípios, a divulgar argumentos e propostas que ficam à mercê de um público, alvos que se podem tornar fáceis para a crítica, o pensamento e o saber, dos quais não tenho a pretensão de domínio nem possuo registo de propriedade exclusiva. Todavia, constituem duas formas de participação cívicas distintas que não dissocio da minha própria forma de estar no mundo. 

 

OBasto: O mundo dos nossos dias é cada vez mais repleto de exemplos que desvalorizam o Planeta Terra em prol do consumismo exagerado das sociedades contemporâneas. Pretende com a reflexão impressa neste livro lançar algum alerta para este problema?

JEQ: Sem dúvida. A matéria que o livro aborda relembra essa velha problemática relacional do homem com a Terra. Incide na crítica ao sacralizado modelo de mercado e da sociedade de consumo que tem a Terra na consideração de um suporte perene e infinito, manancial inesgotável de recursos naturais ilimitados, disponível para todo o tipo de excessos que sofregamente lhe queiramos adicionar. Mas também reflecte uma progressiva e acentuada desumanização do próprio homem reconhecida na sua degradada relação com o seu semelhante, primordial e precursora deste desatino global em que o nosso mundo se encontra. Deste desvario colectivo, não questionado, que tendemos a aceitar como normal e a integrar em nossas empobrecedoras rotinas, resultam inevitáveis perdas irreversíveis na realização do indivíduo, no seu bem-estar e na paz do mundo, no declínio da biodiversidade, na degradação progressiva das condições naturais e nos disfuncionamentos na organicidade da Terra que fazem perigar a Vida no planeta e a nossa existência à escala local. 

 

OBasto: Considerando que, especialmente, as democracias ocidentais têm perdido força para um poder cada vez mais tecnocrático e distante do contacto das pessoas, acredita que isto agrava ainda mais a desvalorização da Terra? E, pior ainda, que legitima essa desvalorização?

JEQ: De uma forma genérica, creio que as democracias ocidentais permanecem virtuosas como modelo de estrutura e de funcionamento das sociedades, mas claudicam às mãos do homem que delas se serve para satisfazer interesses próprios, de grupos e daninhos. Indivíduos ávidos de poder subvertem princípios, desvirtuam os sistemas político-representativos, levam à negação da própria democracia e tendem a adequar o funcionamento das sociedades regendo-as por impulsos imediatistas e corsários. Contam, para isso, com a arregimentação do povo em grupos acantonados, imbuídos de um certo espírito de seita ou de manada, marcados apenas pela cor e pelos símbolos, predispostas a seguir, cada qual, o seu pastor, mas em tudo semelhantes na sua formatura e no comportamento. Trata-se de uma metodologia datada, um tanto totémica e de raízes tribais, naturalmente empobrecedora das sociedades contemporâneas pela escassez de soluções e propostas que aportam em proveito de todos. Direi que as democracias ocidentais são o espelho daquilo que os homens são capazes no seu tempo. Mas é manifesto um défice de realização política e social do que enforma o designado «Interesse Público».

Com uma sofreguidão injustificada, seguimos maioritariamente a mesma cartilha que entronizou nas nossas vidas o deus-dinheiro, dessolidarizamo-nos com os nossos semelhantes mais próximos e mais distantes assim como provemos na Terra o nosso assentamento desconfiado, tendencialmente agressivo e beligerante. 

Direi que todos teremos de fazer um exercício de autocrítica cultural e social, que vise o nosso próprio reencontro no Mundo que estamos a construir na base de uma grande ilusão colectiva, nefasta para todos, marcada pela promoção do que de menos bom há no homem e precisa urgentemente de ser corrigido.

 

OBasto: Tendo um longa experiência nesse campo, como acredita que se poderá motivar as pessoas para os Movimentos de Cidadania sejam a regra e não casos isolados? 

JEQ: Antes de mais, gostaria de dizer que acredito na participação cívica como uma forma de contribuir com novas ideias para a desenvolvimento social e humano das nossas comunidades. 

Os movimentos de cidadania são espaços cívicos informais de exposição e partilha de ideias que tornam mais reais e responsáveis os contributos de cada um, em que todos são igualmente responsáveis. Podem constituir, também dinâmicas embrionárias de instituições políticas, mas como habitualmente estão fora das campeonites partidárias e não disputam poderes fáticos, são mais autênticos nas causas que assumem, nas ideias que os sustentam e, por isso, mais representativos dos cidadãos. São mais activos, mais progressivos e surgem por antecipação às reformas e aos realinhamentos que a sociedade, normalmente, só mais tarde reconhece e valida. 

A participação das pessoas em movimentos de cidadãos também depende da credibilidade das causas que se propõem defender, da sua amplitude e da sua aceitação pública, mas é muito condicionada pela liberdade que cada um se permite, a si mesmo, assumir na sociedade fora do convencionado espaço partidário ou do resguardo da massa anónima indistinta e indiferente aos problemas que pertencem a todos.

OBasto: O que tem faltado para que na sociedade portuguesa o activismo social ainda não seja tão forte quanto noutros países?

JEQ: O que tem faltado é consciência cívica e destemor. Consciência e destemor em relação aos preconceitos bafientos que dominam as nossas comunidades e globalmente a sociedade, e tolhem as pessoas e as iniciativas perante a eventualidade de algum juízo censório. Esta é, no entanto, uma marca expressiva da escassez de maturidade cívica, da hipocrisia que permitimos que reine entre nós e do medo que permanece activo, de que todos os poderes se servem nos seus pastoreios mais ou menos evidentes. 

Todavia, reconheço que o nosso povo, quando desapossado desses factores limitantes e desses jugos efectivos, poderá manifestar um potencial de transformação fabuloso onde radicam saberes e energias que são a verdadeira fonte das maiores virtudes que há no mundo. Basta dar oportunidade para que se manifestem, sejam libertos dos temores com que as capacidades criativas de cada um são domadas. Direi que todos temos de reaprender a ser cidadãos no século XXI. 

OBasto: Será que isso vai de encontro a uma escassa consciência das nossas vidas neste Planeta? Indo de encontro ao que disse recentemente: “Este livro vai permitir que as pessoas fiquem mais conscientes de si e de tudo o que andam cá a fazer”…

JEQ: Sem dúvida, é consequente. Enquanto estivermos constrangidos por limitações que nos são impostas nas aprendizagens formais e informais, damos sentido à necessidade de sermos, de algum modo, tutelados por outro alguém que, por certo, não dispõe de mais faculdades que os demais, mas movimenta-se melhor perante as insuficiências evidenciadas nos outros. Espero que o leitor consiga perceber isso mesmo no conteúdo do livro e que ele possa ser uma porta aberta ao esclarecimento, em que cada um possa efectuar esta reflexão fundamental no processo da existência humana de que somos cúmplices.

OBasto: Agora que publicou o seu primeiro livro e que como se referiu a ele como “sendo seguramente um trabalho não exaustivo e não estando isento de crítica”, procurará alargar a sua obra daqui para a frente?

JEQ: O trabalho está aí, para ser aceite e para ser criticado, sem preconceitos ou estigmas. Contudo, serão para mim bem-vindos todos os contributos reflexivos que me despertem para todos os aportes que o texto possa suscitar. Creio que o livro pode ser um tanto evolucionário e, até, revolucionário naquilo que constitui a sua mensagem essencial, mas corresponde inteiramente a uma forma de interpretar o nosso tempo no mundo presente mais aproximada de um ideal, possível de concretizar a começar por cada um de nós, seus intérpretes, mentores e protagonistas. Em suma, o livro constitui uma homenagem à Terra e um louvor à Vida que de si brotou em toda a sua extensão e amplitude planetária.

OBasto: A terminar, alguma mensagem especial que gostaria de deixar aos leitores que começarão a folhear as páginas do seu livro?

JEQ: Bom!… Gostaria que cada um, ao abrir o livro, percebesse que todos estamos lá, no texto e na Terra que nos acolhe num abraço global, sem distinções de credos, de espécies, de raças, de cor, de géneros ou de castas. E que sejamos capazes de perceber, desde logo, que na condição de seres vivos sobre a Terra todos aqui estamos em aprendizagens e em trânsito, entrados num jogo em que somos as pedras mais importantes e as que mais vítimas somos de nós mesmos, pela ilusão de que conquistando o mundo conquistamos o direito à eternidade. Assim não é, de facto, e só por isso estamos a ser levados a nos perder numa espiral de loucura pela conquista de qualquer poder efémero fora de nós mesmos. 

 

O autor José Emanuel Queirós, estará presente em Cabeceiras de Basto, na sede da Adbasto, Quinta da Mata,  com entrada gratuita, no próximo dia 14 de Fevereiro (sábado), pelas 15H00, para a apresentação do livro “TERRA - Portal de Vida, Planeta do Homem”, que será seguido de debate.

 

*NOTA BIOGRÁFICA

José Emanuel Queirós é geógrafo (lic. em Geografia) e pós-graduado em Gestão de Riscos Naturais na especialidade de geomorfologia, pela Universidade do Porto.

Foi docente no ensino médio e superior, colaborador na imprensa regional, além de promover e participar em inúmeras iniciativas de alcance social e cultural, donde se destaca o «Movimento Cidadania para o Desenvolvimento no Tâmega».

Desenvolve actividade no domínio da Protecção Civil, realizando palestras de sensibilização sobre as dinâmicas físicas da Terra e os riscos que as sociedades e o homem enfrentam.

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