24 de Fevereiro de 2018
Cabeceiras de Basto | 16-09-2014
Por: Redacção
“Basto pelo Mundo” – I Crónica
Mercado local em Lomé.
Continuação da aventura do Pedro “Espanha”.

Com a aventura do Pedro Espanha pelo continente africano demos ínicio à mais recente rubrica do Jornal O Basto. Na última edição publicamos somente a primeira parte desta aventura, decidindo dividi-la em duas pela sua extensão. Enquanto na primeira parte o protagonista e também relator em primeira pessoa da aventura partilhou com os leitores a peripécias várias entre a decisão de se mover de Paris para Lomé, capital do Togo. Interrompemos a aventura já Pedro tinha chegado finalmente a Lomé onde Clémentine, a namorada estava à sua espera. Percorreremos agora, através das suas palavras, a sua experiência enquanto habitante daquela cidade da costa do Golfo da Guiné, bem como as suas reflexões sociais, económicas e politicas tanto sobre o Togo como do próprio continente Africano, passando por fim pelo velho continente. Vale a pena ler…


África: um continente e um futuro cheio de perspetivas! 2ª Parte


“O que posso dizer é que uma viagem sem imprevistos não é verdadeiramente viagem!

Os grandes muros em estado de degradação da zona portuária situada na entrada Este da cidade e o estado desastroso das estradas, não foram as melhores primeiras impressões noturnas apos a minha chegada a Lomé.
No dia 28 de Agosto, primeiro dia passado em Lomé, quando subi ao terraço do apartamento para ver a vista, a surpresa foi tal que a reconciliação com a cidade foi imediata. A forte luminosidade e os contrastes da luxuosa vegetação que coabitava em perfeita harmonia com diferentes tipos de imóveis da cidade era perfeita. Toda esta beleza escondia nas entranhas da cidade vários problemas urbanos das quais me apercebera dias mais tarde.

O Togo é um dos mais pequenos países da Africa com cerca de 57 000 km ², pouco mais da metade de Portugal, e conta com mais de 6 milhões de habitantes. E um país reconhecido pela diversidade das suas paisagens a costa, os planaltos e as florestas verdes no centro e as planícies áridas e savanas no norte do país. No país existem cerca de 50 etnias e falam-se mais de 40 dialetos diferentes. As duas etnias mais fortes são a dos Kabiyès do Norte e a dos Ewe do Sul.
Com um clima sub-tropical, as temperaturas anuais não ultrapassam os 33°C em média, com picos máximos de 38°C. Posso dizer que a transpiração faz parte do dia-a-dia, sobretudo para os ocidentais como eu.
Nos países subtropicais não existem estações, mas sim duas épocas. A época das chuvas que vai de Junho a Setembro, com inundações frequentes e, a época seca que dura de Outubro a Abril, com uma penúria frequente de acesso à agua potável. A adaptação a este tipo de clima é bastante difícil e pode levar mesmo meses, há mesmo quem não se consiga adaptar com o passar dos anos. E é por esta razão que as habitações, os locais de trabalho e a maioria dos veículos estão equipados de um sistema de ar condicionado que funcionam dia e noite.
Em termos políticos, o país obteve a independência da França em 1960 e esteve sob a o poder do General Eyadema Gnassignbé durante 38 anos, de 1967 a 2005. As disparidades sociais são muito fortes, com uma classe muito rica, a família e parentes próximos do General que controlavam a economia do país, e outra muito pobre, nomeadamente a população adepta dos partidos políticos da oposição e a que habita nas regiões mais rurais do país. 

Em Março 2010 decorreram novamente as eleições presidenciais do Togo. Sentia-se uma certa sensação de medo por toda a cidade. De tal forma que a maior parte da população citadina desertou para os países vizinhos com medo de reviver os eventos sucedidos em 2005. A cidade ficou praticamente deserta durante duas semanas, sendo no fim-de-semana em que o silêncio mais se fazia sentir. Demasiado extrema devo dizer, a reação da população facilmente influenciável pela manipulação mediática do poder politico que acabou por voltar a ganhar.

Desde então, a qualidade de vida vai melhorando, mas digamos que este novo estado democrático não é muito diferente dos restantes do continente Africano. A politica é pura e simplesmente uma história de família, como se eles fossem os "Senhores”, e o resto da população os seus "Caseiros". A imposição do poder político perante a opinião pública é muito forte. O abuso do poder, a corrupção, o comércio ilegal, a forte prostituição, entre outros, são temas que fazem parte do dia-a-dia.

Apos este rápido histórico do Togo, regressemos a Lomé, a cidade capital que conta com cerca de um milhão de habitantes. Ao ritmo dos primeiros raios solares que invadem a superfície terrestre, a população aproveita do ar fresco matinal e começa a agitar-se em todos os sentidos. As 7h00 da manha é a hora de começar a trabalhar. A agitação é tamanha, impressionante de ver, nomeadamente no centro da cidade, das crianças aos mais velhos, todos desempenham uma ou varias tarefas que lhes permitem ganhar uns trocos para poder comprar o pão do almoço ou do jantar.
Ao fim da tarde e durante a noite, todo o género de tascas transbordam de vida ao longo das estradas principais, das ruas de bairro e até mesmo nos impasses menos esperados. Tascas se assim lhe podemos chamar, ilegais na maior parte, são pequenas barracas, género a dos frangos na festa do S.Miguel. Sendo estas um dos principais pontos de encontros nocturnos, gastronomia, álcool e música local com um volume extremamente elevado, que animam as ruas obscuras da capital.
Lugares onde principalmente, só os estrangeiros mais jovens fazem o esforço de se misturar à massa e de partilhar a vida com este povo que é do mais animado que tenho conhecido.

Quanto a mim, a adaptação não foi difícil. As pessoas foram muito acolhedoras e muito simpáticas. O mais difícil de suportar para mim a chegada e até ao fim da minha estadia em Lomé foi a humidade quotidiana e o sol que queima numa fração de segundos.

O bairro onde estávamos, assim como na maior parte das cidades africanas, a mistura social urbana é muito forte. Ricos e menos afortunados vivem lado a lado, frequentam o quotidiano numa verdadeira inclusão urbana. Pelo menos este é o sentimento que temos quando nos movimentamos na cidade.
Hoje em dia a realidade é bem outra, as grandes instituições internacionais, Embaixadas, ONG, Bancos, Indústrias e outras do mesmo género, por razões ditas de segurança pública, constroem bairros privados altamente protegidos pelas forças militares do país. Criando desta forma uma barreira social extremamente forte, que contribui a meu ver, a um aumento da insegurança urbana.
Embora a imagem que lhes estou a dar da cidade pareça negativa, o quotidiano não o é assim tanto. Durante dois anos convivemos com os nossos vizinhos, prestamos a nossa ajuda quando podíamos e vice-versa. Haviam pessoas que para irem fazer compras ao supermercado a menos de 200 metros de casa, iam de carro com medo de serem atacados caso fossem a pé, quando nós íamos todas as manhãs buscar o pão à padaria que estava junto ao supermercado e nunca tivemos o mínimo problema.
Acho que tudo é uma questão de carácter, de preconceitos e de ideais.

Na segunda semana que passei em Lomé, fui visitar a universidade de Lomé onde normalmente ia estudar durante um ano lectivo. Para terem uma ideia, a universidade frequentada por mais de 40 000 estudantes, para os quais apenas 30 computadores foram postos à disposição dos alunos, e somente 12 funcionavam. Os anfiteatros de 150 lugares acolhem mais de 300 estudantes, dos quais a metade se instalava ao exterior do anfiteatro.
Num dos meus primeiros dias de aulas choveu de tal forma, que uma parte do tecto em contraplacado cedeu com o peso da água. Finalmente abandonamos a sala pois chovia tanto dentro como fora.
Portanto o panorama exterior da universidade é excepcional. Situada em plena cidade, é uma zona bastante pitoresca, rodeada de árvores e de campos agrícolas. Quando se vai de uma sala para a outra, passasse pelo meio dos campos onde vês e discutes com os agricultores que ali produzem os seus alimentos.

Em paralelo aos meus estudos entre Lomé e Paris efectuei um estágio de 8 meses nos Serviços do Urbanismo da Camara Municipal da cidade de Lomé num projecto de Planificação Urbana.
A minha missão consistia num primeiro tempo em realizar o plano urbano, assim uma caracterização socioeconómica da cidade de Lomé.

Apos o estágio, em Setembro 2010, trabalhei durante um mês como consultor no CREPA/AWA (Centro Regional de Agua Potável e de Saneamento, representado em 17 países da Africa) num projecto de gestão dos lixos e das águas domésticas de um bairro sensível da cidade de Lomé.
Depois do CREPA, trabalhei como consultor para um Gabinete de estudos urbanos num projeto da “Cities Alliance” (Banco Mundial).

O mais interessante deste projeto foi a pluralidade dos interlocutores com os quais tive que lidar durante o meu contrato. Engenheiros e Técnicos Municipais, o Presidente da Camara Municipal, os Diretores Gerais e Directores dos Gabinetes dos Ministeriais, o Ministros do Urbanismo e do Ordenamento, sem esquecer os chefes tradicionais e os representantes da população e da massa associativa. A lista era vasta e os encontros foram enriquecedores em todos os aspectos. Nomeadamente a simplicidade com a qual pude encontrar e dialogar com cada uma destas pessoas fosse qual fosse o seu estatuto social.
Quando penso nestes momentos pergunto-me a mim mesmo se seria com a mesma facilidade que eu poderia abordar os homólogos destas mesmas autoridades em Portugal ou mesmo em Cabeceiras de Basto.
As vezes dá-me vontade de rir, sobretudo quando penso que para marcar uma entrevista com os nossos dirigentes locais, temos que preencher um formulário de questões e razões diversas, para no fim nem sequer termos a certeza se eles nos vão receber ou não. E claro que se for um amiguinho, tem entrada livre. 

Como é evidente não foram só estudos e trabalho durante a minha estadia no Togo. Nos fins-de-semana e férias que não passamos nos nossos respectivos países natais, aproveitamos para conhecer a região, nomeadamente os países vizinhos do Togo.
Os contrastes das paisagens são surpreendentes. A cor da terra barrenta misturada à vegetação extremamente verde, onde pequenas cabanas de palha surgem do chão como cogumelos, são momentos que nenhum aparelho fotográfico pode capturar.
 Durante um passeio algures nos planaltos do Togo, ao atravessar um ribeiro com o 4x4, como era de esperar ficamos atolados. Durante perto de uma hora fizemos o que pudemos para tirar o veículo dali para fora, sem qualquer sucesso. Num momento próximo do desespero, começaram a surgir pessoas do meio dos campos e da floresta. Alguns minutos mais tarde, 10 pessoas estavam a empurrar o 4x4 e saímos logo à primeira. Visto que não falávamos a língua local, nem eles o francês, uma simples troca de sorrisos e acenações gestuais foram o nosso modo de agradecimento.

Penso que se as intenções do governo do Togo assim como outros governos em África e mesmo do nosso continente fossem de proporcionar a cada habitante uma melhor condição de vida, eles poderiam faze-lo.
Lutar contra a fome por exemplo, investindo na agricultura nacional, diminuindo as importações desnecessárias, implicando desta forma uma baixa global dos preços. Actualmente, num país como Portugal, com o potencial agrícola que tem, importamos mais de 68% dos alimentos que consumimos.
Não acredito que o nosso Governo não possa tomar decisões para melhorar esta situação, penso sim que os nossos dirigentes têm as mãos atadas com os acordos que passaram com a União Europeia.

Agora imaginem um país como Togo onde a terra é tão fértil que certos alimentos podem ser semeados duas vezes por ano. Se as políticas agrícolas não fossem as mesmas que no nosso país, penso que os togoleses teriam alimentos suficientes para saírem do dito solo de pobreza.

Em Julho de 2011 regressei ao velho continente, a Paris, onde integrei o Groupe Huit, um Gabinete de Consultadoria especializado no desenvolvimento urbano unicamente a nível internacional. A África e a Ásia são os continentes onde mais trabalhamos.
E desta forma que viajo com regularidade, para meu consolo, para dar um apoio técnico aos governos e as diferentes autoridades territoriais e municipais.

Muito resta ainda por dizer sobre esta viagem por terras de África, que foi de longe a viagem que mudou a minha forma de olhar, compreender e julgar o que me rodeia.

Adenda:
Leia a primeira parte desta "aventura": África: um continente e um futuro cheio de perspetivas!

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Comentários (1)
nelson barros disse

gostei muito vou contatar< consigo se não se importa pois tenciono trabalhar em africa. e quero opiniões e esta perto de s tome


02 de Novembro de 2014 18:34








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Este vídeo foi apresentado no oitavo aniversário da adbasto (Associação de Desenvolvimento Técnico-Profissional das Terras de Basto), e conta, visual e oralmente, a história desta associação.
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